puxar pele

por Juliana Wähner

puxar pele

experimento projeção do vídeo da obra sobre a obra

foto Amarú Dlm
foto Amarú Dlm
foto Amarú Dlm
foto Amarú Dlm
Screen Yuri Landarin
foto PV Alcantara Martins
foto Yuri Landarin
foto PV Alcantara Martins

qual a fronteira entre um corpo e outro? o que os diferenciam?
o que um oferta ao outro?
uma súplica, uma contaminação, uma oração velada na carne?

os movimentos parecem ser convertidos em falta, mas também em adoração.
o que somos senão algo anônimo?

tento dizer sobre nossa expansão, mas não me reconheço, já perdi o que chamamos de rosto.
eu me penduro em ti, eu me derramo.

tentamos conceber a manhã sozinhos, mas é inútil.
o toque derrama nossas fronteiras, e não há mais diferenciação entre manhãs e noites. nossos músculos adquirem um nova substância.
eu deslizo ao teu encontro, não me desfaço de ti.

é de nossa reunião, que tantos chamam de obscena por estarem atrofiados, que nasce o crepúsculo que guardamos intocado.

registro por RAQUEL GAIO

anotações

por Raquel Gaio

18/07/17

68º dia

Cada vez mais flores habitam o vestido. Cada vez mais, se tornam difíceis os remendos, as suturas, os movimentos para preenche-lo ficam mais longos, as linhas se misturam mais, os nós se visitam com mais profundidade.

As flores parecem estar virando pó.

foto da primeira flor eleita para o trabalho

14/07/17

64º dia

Prendi no vestido a flor rosada que o menino deixou.

Durante um remendo, pensei nos bichos que habitam as flores secas.

Numa tentativa de colocar um galho que ficava para fora do contorno do vestido, aconteceu a quebra, a fenda, a separação.

Quando enfio a linha vermelha na agulha, de certa maneira, estou colocando também o meu próprio tempo. “A linha é o prolongamento de mim mesma.” Linha de Costura, Edith Derky

A agulha como uma arma – ataque e defesa-

Existe sim um território onde os fusos horários se entrecruzam dentro do corpo da gente. (…) Talvez o centro físico do universo esteja dentro de cada coisa.”

Meu corpo rouba porções do tempo. A idade não deixa de ser uma alucinação. Um corpo inalcansável dentro de um outro corpo.

Cada galho carrega um tempo. Vestígio.

Ontem, enquanto eu passava a linha vermelha sobre um mesmo ponto na calcinha, você disse que esse meu remendo parecia uma flor.eu chamo de nódoa.

pesquisas, referências

por Raquel Gaio

leitura feita entre janeiro e abril

relida em julho.

Memória como agente de resistência

Nas artes, a evocação das memórias pessoais implica a construção de um lugar de resiliência, de demarcações de individualidade e impressões que se contrapõem a um panorama de comunicação à distância e de tecnologia virtual que tendem gradualmente a anular as noções de privacidade, ao mesmo tempo que dificultam trocas reais.

Também é o território de recriação e de reordenamento da existência- um testemunho de riquezas afetivas que o artista oferece ou insinua ao espectador, com a cumplicidade de quem abre um diário.

Canton, Katia. Tempo e memória. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. p.21 22

 

anotações

por Raquel Gaio

Junho

costuro uma nódoa vermelha, vazia, um hematoma. um remendo que nada abrange em seu interior, que já nasce oco no corpo e que não trama nenhum desperdício, além de seu próprio vazio.

porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.” Herberto Helder, O Bebedor Nocturno

tudo contém sobras, desperdícios, vestígios. embora nos pareça que sempre falte algo.

ver o escurecimento da linguagem.dos tempos.

deixar surgir um altar: um arquivo, inventário dos restos.

22/06/17

às vezes é difícil ver onde termina uma sutura, um remendo, ou se de fato está cumprindo sua função de fechar, juntar.

verificar se de fato as bordas estão seguras.

uma poética do sintoma.

anotações

por Raquel Gaio

Maio/junho

– a noite sempre morre aberta em algum corpo –

Catalogar.

nomear cicatrizes.

inventário.

O poder da foto como testemunho/ garantia do acontecido.

Enaltecer o vulnerável. Espécie de ritual, cerimônia

Atribuir espessura, em vez de achatá-la. 

De um corpo em trânsito para um corpo parado/ um corpo em repouso.

Misturar os tempos- ( nas fotos e também nos objetos)- o que era presente já é passado/ acúmulo de gestos, tempos e travessias.

Colocar as folhas como “fronteira” e não exatamente embaixo.

Tudo morre com o nome. ou não.

Esquecer também é uma forma de endurecer.

pesquisas

por Raquel Gaio

a coisa em si

” A verdadeira comunicação da experiência singular talvez seja a expressão da coisa nela mesma.Quanto mais o trabalho é uma coisa, mais próximo é a expressão do incomunicável.” Edith Derdyk, Linha de Costura.

 

foi desejo

vô-partida, do 8º dia

por Raquel Gaio

quando meu avô partiu, parte deste galho deixei junto ao seu corpo e a outra parte remendei neste vestido, marcando também a data de sua ida. talvez seja uma forma de permear a presença,estar junto para além do corpo, enaltecendo o vulnerável, sendo um testemunho afetivo da minha genealogia. 19-05-17. sinto saudades.
escrever depois da perda
escrever sobre a perda
escrever com a perda
mapa de vulnerabilidade
teu corpo teus ossos tua ida
penso nas mãos úmidas e fortes
que esperam ser embrulhadas
penso em teu rosto
e no momento em que entrei nele
para fotografar agora, na escrita,
a minha- nossa mudez.
sei que estamos juntos
em algum lugar irremediável.
anotação, declaração do que eu ainda não sei dizer.
24-05-17.

Marceli Andresa Becker possui uma escrita que me transmuta, me acalenta, me abre. No começo deste ano li mais um de seus lindos textos e percebi que possui um grande diálogo com esse acontecimento.

talvez seja um ato de amor dos mortos em relação aos vivos
quero dizer, isto de haver algum grau de perenidade nas coisas que seus corpos deixam
de haver duração em caligrafias de cartas e um mínimo de imanência em perfumes
isto de haver mesmo nas fotografias que desbotam certa estabilidade

e ainda que tenham muitos medos e que seu sofrimento pareça em muitos aspectos interminável
os vivos sabem que não precisam temer tocar as fotografias com a ponta dos dedos
que não importa o quanto eles chorem vendo-as
elas nunca se turvarão ao toque e desaparecerão como se fossem reflexo na água

[e sempre será possível voltar e ter esteio para as mãos
ter altares
ter âncoras para a palavra]

anotações

por Raquel Gaio

pensar na escassez do gesto.nas configurações já estabelecidas.

brotar-se.

-todo ferimento exposto gera adubo- uma narrativa do perecível.

costurar o tempo.tentar transmitir o inenarrável.

possuir uma fidelidade ao insuficiente, ao precário.
poder ser um testemunho afetivo.

uma genealogia da contaminação.

ser rachada de nascimentos.

MAIO, 2017

história do vestido

por Raquel Gaio

somos bocas famintas que não descansam, 2016- Cinelândia
pesquisa a construção da ausência no corpo, 2013-UFRJ
tentativa de eliminar fracassos, 2016-Zona
pesquisa a construção da ausência no corpo,2013- UFRJ
somos bocas famintas que não descansam, 2017- Quadra da Unidos de Vila Isabel

 

das primeiras anotações

por Raquel Gaio

uma narrativa do perecível.

ainda que o desejo se mobilize para um nascimento ou para um nó.

suturar os tempos.a fragilidade.

o perecível tudo perfura.

brotar-se, ainda que perecivelmente.

toda resistência é uma espécie de alucinação .

**

o trabalho se dá pelo tempo, pelo imprevisível ( o acontecimento), pelos meus afetos, além de ser atravessado pelo lugar no qual está inserido. sendo assim, não há uma ordem específica ou uma hierarquia de forças que define essa construção. São camadas (…) que se atravessam, e esse fazer se dá por uma relação- eu a obra o tempo os afetos acontecimentos – (ainda) inominável, mas que talvez dialogue principalmente com a ideia de transitoriedade.

Abril/maio